Guardando Pirenópolis

meia_luaPirenópolis na minha cabeça eram aqueles cavaleiros com cabeça de touro, minotauros coloridos que devo ter visto pela primeira vez em fotos da infância. Era isso e a presença de Celsinho, que morava lá há sei lá quantos anos, o afinador de pianos da cidade. Foi o bastante para aceitar a sugestão de um amigo como destino para as férias, como se fosse a coisa mais óbvia desse mundo. Sim, é Pirenópolis e não se fala mais nisso.

Decisão das mais acertadas, vejo isso olhando em retrospecto para os quase quinze dias que passei nessa cidade, que é o que pensei só que em uma escala vertiginosa de beleza e encantamento, uma cidade solar no planalto central desse brasilzão em transe.

Poderia falar de cada um dos dias passados de maneira detalhada. Desde a chegada, quando fiquei procurando ansioso o casario ainda da janela do ônibus, até deparar com alguns casarões que fizeram vibrar o velho coração ludovicense, antes de descer na rodoviária, onde me sentei com ares cosmopolitas para chamar um Uber. Só que não. “Eu levo ocê lá, ué”, interveio o moço da lojinha que acabou me trazendo ao Chalés Terra Viva, simpático lugar há dois quilômetros do centro, pousada cheia de plantas, passarinhos de todo tipo e casinhas coloridas.

20180914_164750

20180918_170103

Já era de tarde, comi um petisco transformado em banquete de chegada e esperei quase uma hora pra tomar posse do meu chalé, que se tornou minha casa por todos esses dias, e ainda será até amanhã. Fiquei por lá, jiboiando, cochilando, me congratulando comigo no gozo antecipado que aqueles dias me prometiam de forma tão clara. Amanhã eu desço pra cidade…

Encarei a descida estoicamente, na minha primeira manhã em Pirenópolis, um sábado reluzente, fazendo valer a modesta forma física conquistada com razoável disciplina. Pouco tempo depois eu estava no começo da Rua Direita, caminho das boiadas do passado. À medida que caminhava por aquela via comprida, a cidade que buscava ia se relevando para mim, um sentimento de euforia que eu saboreava intimamente, sorrindo pra mim mesmo, comentando o que via comigo mesmo.

Sigo em frente e de repente estou no largo da Igreja Matriz, e foi como uma vertigem, os olhos e o coração inundados, dando gracias a cada inspiração profunda, enchendo os pulmões de vida. Depois de parar numa lojinha, de onde saí com um boné verde oliva que me acompanharia dali em diante, liguei pra Celsinho Leal com um papo surreal, de um cara que tinha trazido um piano de cauda de São Luís só pra ele afinar. Rimos às pampas e marcamos de nos encontrarmos no dia seguinte.

Conheci todo mundo, ou quase, dada a extensão da família desse homem calmo, idealista e corajoso que aprendi a gostar e ainda nos tempos de São Luís, há trinta anos, embora tenhamos convivido menos do que eu gostaria, mas o bastante para reconhecer afinidades que sempre nos levaram a conversar sobre coisas essenciais, do existirmos. Ainda está me devendo o esquema genealógico que pedi, só assim vou entender de uma vez quem é filho, filho-enteado, genro e neto. Talvez ele me entregue hoje, quando fomos fazer a subida do morro das torres, pra ver o pôr do sol.

Mas conheci quem deu, especialmente MC Murcego, legítimo representante do Rap do cerrado, que conheci assando uma carne com mãos de mestre e depois no palco, mandando ver no festival Canto da Primavera.

O festival foi outra surpresa, pois vim pra cá sem saber desse evento anual de música, onde acabaria vendo bem de perto Zélia Duncan e João Bosco, os dois convidados do quarteto Aláfia (palavra iorubá que significa felicidade, tudo de bom), uma formação de músicos excepcionais sob o comando luminoso do multipercussionista Marco Lobo. Falarei dele em capítulo a parte, mas posso afirmar que é uma experiência única vê-lo em ação, sorrindo com um ar beatífico enquanto tira sons extraordinários até mesmo de uma garrafa pet. Um herdeiro da tradição de antigos xamãs psicodélicos, e que os céus me corrijam com brandura, se eu estiver errado. Marco Lobo, muito obrigado meu irmão. Tive muita vontade de lhe dar um abraço ao vê-lo do meu lado na última noite. Faltou coragem, sobrou reconhecimento.


20180921_234451

20180921_235922

E o mais foram passeios a algumas das dezenas de cachoeiras espalhadas pela cidade, incluindo o Parque do Pireneus, onde fomos acompanhados por Nicodemus, gente finíssima e nada menos que bisneto de um dos fundadores da cidade. Sua companhia foi uma honra e uma aula ao ar livre, sobre fauna, flora e história de Piri, como chamam a cidade por aqui. Grande Nicodemus, respeito!!!

Andei como se estivesse em Alcântara, descansei, li, escrevi dois poemas, me emocionei, me entristeci, conheci gente, ouvi histórias curtindo o sotaque que acho massa, e redescobri uma vocação de vagabundo que andava sufocada pela armadura de guerreiro urbanóide. Vamos ver como vai ser a volta…tenho me adaptado demais. Pirenópolis me descondicionou, para o bem da minha velha alma nova. Está decidido. Não vou me adaptar mais!!!!

PS – Obrigado meninas, Ana, Rosa, Tânia e todo mundo do Chalé Terra Vida. Tudibom procês, uai.

Anúncios

Ainda assim, poemas

lula_poster

Sei que talvez não adiante absolutamente nada escrever um poema diante da escalada do fascismo em nosso país. Uma ameaça desse porte e tão concreta mereceria ações mais diretas e igualmente concretas. Muito mais do que um poema. Mas tem uma coisa: também eu sei que me sentiria muito menos poeta, diminuído em minha natureza, se optasse pelo silêncio, se optasse por virar o rosto “fingindo não ver o que está vendo”, como diz a velha canção de Dylan. Velha mas atualíssima.

É tudo uma questão de como você se coloca no mundo. Se a poesia pra mim está longe de ser uma inutilidade, se a poesia é nada menos minha forma de estar no mundo e afirmar a minha humanidade, é natural que ela esteja atenta também à dimensão política. Política que não se separa da dimensão do afeto, da compreensão afetiva do mundo. Sem essa de política e poesia são demais pra um homem só. “Sou vasto, contenho multidões”, diz em cada esquina o paizão Walt Whitman, a nos lembrar do óbvio fato de que somos mais que nós mesmos, e é só por isso que somos nós mesmos.

Whitman, Lorca, Drummond, Ginsberg, Roberto Piva, Ferlingheti, Maiakósvki, Dylan Thomas, Ferreira Gullar, tantos, tantos, numa aleatória descendência, um rastilho incandescente que se formos rastrear vai dar nos profetas irados do antigo testamento, não por acaso fontes da oceânica poesia whitmaniana. Todos a nos dizer: não se calem, não tenham medo. Vocês não estão sozinhos. E não estamos mesmo.

Esses poemas não são um lamento, são um convite ao prazer da luta, de estar vivo, pelo direito à nossa felicidade guerreira.

Lula Livre!!!!!

Fora fascistas!!!!

Poetas lançam poemas na “Noite Lula Livre”, no Chico Discos

Poetas lançam poemas pôster nesta quinta-feira, 5 de julho, no Chico Discos, centro da cidade. No lançamento haverá uma leitura das obras que Celso Borges e Fernando Abreu escreveram defendendo a liberdade de Lula, além de textos de Brecht, Maiakovski, Walt Whitman, Ezra Pound e Roberto Piva. Parte do dinheiro arrecadado com a venda dos poemas será revertido para o acampamento dos militantes em frente à Polícia Federal, em Curitiba, onde Lula está detido.

“Acredito que a liberdade de Lula é fundamental para legitimar a próxima eleição presidencial. Hoje Lula é um preso político”, diz o poeta Fernando Abreu, autor de Mesmo assim um poema, em que reafirma a palavra poética contra toda desesperança, em versos como:

“mas enquanto me reviro
e me contorço
e guincho
minha alma canta
estou sem meu poema
estou sem nada quase
mas eu mordo esse canto
e mastigo esse fiapo de luz
a contragosto”

“É um ato poético e político”, afirma Celso Borges, autor do poema NOW, em que imagina vários artistas do século 20 pedindo a liberdade de Lula, entre eles os pintores Munch e Frida Kallo e os poetas Ezra Pound e Roberto Piva, além do beatle John Lennon:

nunca uma frase reza
nem a flor da indelicadeza
mas raduan em lavoura de cólera
frida pintando nos murais de rivera:
LULA LIVRE

porque se vomitam
a brutalidade nos tribunais
pound se ergue nos cantos da jaula
munch grita paralém da ponte:
LULA LIVRE

contra as ruas em falsa festa
piva delira paranoia
lennon risca riffs na guitarra
we all want to change the world

 

 

neurivan_capa

A agenda familiar me desviou do rumo da AMEI no último sábado, onde pretendia dar um abraço no poeta Neurivan Sousa por ocasião do lançamento do seu belo livro “Minha estampa é da cor do tempo”. Editado pela Penalux, que vem notabilizando por lançar novos e bons nomes por estas bandas, o livro é belo por dentro e por fora. A partir do grafismo da capa, de um psicodelismo, quem sabe, involuntário que me agrada bastante. Uma rubra tapeçaria onde olhos e mente podem passear por minutos, preparando o ânimo para entrar nos poemas, um conjunto coeso de cinco seções, onde há muito o que se descobrir em sua simplicidade aparente, como sempre é a simplicidade em toda poesia digna do nome. 

Bom, tendo perdido a festa, me resta o consolo do livro autografado pelo autor, com quem dividi a programação do último sarau da Revestrés, em Teresina, recentemente, ao lado de Paulo Rodrigues, Demétrius Galvão, Maria Luíza Cantanhede, Dudu Galiza, Maria Luíza Cantanhede e muita gente bacana que apareceu por lá.

Como aperitivo, deixo o poema abaixo, quem quiser mais, só ir atrás do livro.

ZOO

Na sala vip do hotel
um cão na poltrona
assiste ao telejornal
entre um flash
e um flerte dos fãs

enquanto seu dono
no cio disputa
com dez homicidas
na estação do Brás
uma call girl
Made in Brazil

AS CRIANÇAS DE JAH

senhor_moscasas crianças de Jah brincam na grama

do grande parque do mundo

parece um pouco maltratado

depois de tantas bombas

mas elas correm entre os escombros

e ainda é o grande parque do mundo

o velho gramado ferlinghettiano

(não ligue para essas flores estranhas

reação ao adubo das trincheiras)

 

as crianças de Jah são pura energia

afugentando à bala

amiguinhos que chegam de bote

brincando de salvar

amiguinhos ainda menores

que eles brincam chamando de filhos

game de ação instrutiva

realidade aumentada além do suportável

 
as crianças de Jah vão à escola

para aprender a somar e subtrair

não se tornam muitos bons em dividir

o sistema educacional não é perfeito

mas tende a melhorar dialogando

com as crianças de igual para igual

o importante é o aspecto lúdico

 
as crianças de jah escrevem poemas

e inventam uma outra vida

e uma outra dentro da outra

apontam seus dedos lustrosos

uns para os outros numa guerra santa

pelo monopólio do indizível

alguns se explodem junto com a linguagem

 
as crianças de Jah

pouco resta a dizer sobre elas

que já não tenha sido dito ou pensado

imaginado ou sugerido

desde que as crianças acordaram

e descobriram que depois de tudo

não eram nada mais que crianças

só lhes faltava a inocência

e o tempo

e Jah

 

NAO POEMA PARA UM PRESO POLÍTICO

abre-dossie-lula-3

por enquanto estou sem meu poema

o que posso dar de mim

mais próximo do amor

arrancado e transformado em raiva

e agora estou me transformando

no que não quero

grunhindo como um porco

pensando como um porco

com fome de escuridão

e merda vingativa

 

mas saiba que não é fácil

enquanto me reviro

e me contorço

e guincho

minha alma canta

meu rio de janeiro

minha são luís

meu grajaú maranhense

minha infância minha vida

até aqui

 

estou sem meu poema

estou sem nada quase

mas eu mordo esse canto

e mastigo esse fiapo de luz

a contragosto

vomito e engulo de novo

uma hora vai segurar

e vai subir pelo esôfago

e sair pela boca, pelos olhos pelas ventas

e minhas patas de porco

voltarão a ser mãos de homem

melhores até que antes

porque agora me falta

o dedo mínimo

HEYK PIMENTA AO VIVO NA AUDIO REBEL

Há coisa de um ano atrás recebi uma ligação desse cara dizendo que estava quase indo embora de São Luís e que não queria fazer isso sem me ver, atendendo à sugestão de um amigo comum. Mais tarde nos encontramos  na livraria Poeme-se, onde trocamos abraços, livros e risadas. Conheci também sua mulher, que tem raízes maranhenses, e o filho, na época um bebê.

Pouco tempo depois fui ao Rio para um lançamento coletivo  da 7Letras, do qual eu fazia parte com meu “Manual de Pintura Rupestre”, e pude visitar a trepidante oficina de poesia que Heik Pimenta agita junto a uma turma bem aguerrida, uma experiência animadora em vista do rigor afetuoso que pude sentir em doses fartas. De lá pra cá, de vez em quando a gente troca umas ideias e mantém os canais funcionando.

Se fosse você e estivesse no Rio nao perderia esse show por nada. Confira:

Com 10 anos incansáveis de poesia, Heyk é uma das presenças mais ativas na cena do Rio. Ele sobe ao palco da Audio Rebel, ao lado de Cadu Tenório, para um show que promete fazer sumir o chão

O jogo de Heyk Pimenta é o do esquizoide latino-americano que nos apresenta o antropólogo argentino Nestor Garcia Canclini. Por vezes recorrerá aos avós, às rezas pra matar formiga e apagar fogo na lavoura. Outras cantará o aço e as guerras que vê no futuro. Mineiro de Córrego dos Pontões, está no Rio de Janeiro desde 2007.

Das pequenas apresentações de saraus íntimos em Santa Teresa à Oficina Experimental de Poesia (OEP), projeto que encampa ao lado de outros artistas e críticos desde 2011, diferentes momentos marcaram a formação do poeta. Acima de tudo, é um artista dedicado à amplitude da literatura: o mesmo interesse que fez com que se aproximasse de Sergio Cohn e realizasse trabalhos para o catálogo da Azougue Editorial, também estava direcionando-o ao trabalho na rua, falando poesia e vendendo zines xerocados nas calçadas, ônibus e metrôs.

Heyk viu o renascimento da poesia falada no Rio de Janeiro, em todas as regiões da cidade, mas principalmente pela experiência ou ao lado de Guilherme Zarvos e o CEP 20.000, Os Ratos Diversos, a banda Na Sala do Sino, o poeta Marcelo Reis de Mello e depois os pares da OEP.

Para ele, o poema é uma máquina de presente, de disputa de imaginários e por isso oscila suas referências entre mestres que atualizaram o saber popular como Elomar Figueira de Mello ou Brennand e artistas que se dedicaram principalmente à experimentação mental ou afetiva como Leonilson, Nuno Ramos ou na música Negro Léo e Juçara Marçal.

Publicou os livros de poemas Sopro sopro (Edições Maloqueiristas), Kraft (Cozinha Experimental), A serpentina nunca se desenrola até o fim (7Letras) e o livro de oficinas e testes Almanaque Rebolado (Azougue, Cozinha Experimental, Garupa), escrito a vinte mãos.

Em apresentação única no Rio de Janeiro, Heyk está ao lado de Cadu Tenório, músico que é hoje referência para a cena experimental brasileira. Poemas ainda inéditos em livro comporão com a sonoridade uma atmosfera de precariedade e viração. A abertura será de Fernanda Morse e Lucía Santalices.

 

 

GHOST NEWS

 

 

o general quer tiros de fuzil

com precisão cirúrgica

no centro das idéias dos malvados

não importa que a cabeça vá junto

talvez a mais perversa das conspirações

seja desacreditar todas as teorias conspiratórias

enquanto rimos da área 51 e seus broches para turistas

enquanto o medico continua virando monstro

e ninguém nota nada de estranho no olhar dele

enquanto a maré vai subindo até sufocar

todos os poetas que insistiam em dizer algo

num grande mar morto de vergonha

enquanto nos apaixonamos por insetos

capazes de zumbidos que nos fazem gozar

de forma higiênica e sem riscos

enquanto relatórios são criptografados

por militares viciados em I-Ching e Ezra Pound

enquanto comediantes stand up discutem a sério

o pós-humano

o pós-poema e

a pós-verdade

e começo a entender porque

não quero mais adotar um gato

e esse general parece o ferreira gullar

no modo como se retorce para arrancar

um argumento de dentro do cérebro

como eu me retorço pra arrancar um poema

que não vai me deixar minimamente feliz

e ele sabe tanto quanto eu

que vamos errar o alvo muitas vezes

e não há nenhum dever em jogo aqui

Um museu para o futuro do reggae

museu

Quis o destino que eu deixasse pra conhecer a já famosa Quinta do Reggae no dia da Inauguração do Museu do Reggae. E valeu a pena totalmente a espera. O que posso dizer é que presenciei um dos momentos mais emocionantes da história desse gênero amado pelos ludovicenses e hoje totalmente integrado à paisagem cultural da ilha e do estado. Fato de que a própria fundação do Museu é exemplo eloquente.

Mas não foi sempre assim. Como bem lembrado pelo anfitrião da noite, o militante histórico do gênero e diretor do Museu, Ademar Danilo. Há 30, 40 anos, a única relação do poder público com o reggae era mandar a polícia para reprimir, negar alvarás para a realização de festas e por aí vai. E não era apenas o poder público, a intelectualidade e mesmo parte da classe artística virava o nariz para a crescente força do reggae, tratando o fenômeno como uma invasão que poluía a sacrossanta tradição da Atenas Brasileira. “Jamais jamaicana”, bradava Ubiratan Souza em canção ciosa da “pureza” musical dos maranhenses.

Esquecido talvez que o bumba-meu-boi até os anos 40 por aí só podia brincar até as imediações do João Paulo para não ofender os bons costumes do lugar. Irônico, não?

Não vou me alongar nesse triste passado, pois a ideia aqui é somente celebrar uma noite histórica e de uma beleza que não se pode descrever. Como disse a Ademar no momento em que atravessei o mar de gente para lhe dar um abraço, o que eu via ali realizava o ideal de integração com que sonhávamos nos anos 80, quando eramos felizes intrusos no Espaço Aberto, maravilhados com aquela cena que desde então passou a fazer parte de nossas vidas e as tornou mais rica.

O que quero dizer é que, pela primeira vez, pelo menos naquela escala, pude ver o poder de união do reggae realizado em plenitude. O público do reggae é segmentado nos dias atuais? Sim, mas não na noite de ontem. Ali o que se via eram curtidores de todas as idades e extratos sociais não apenas misturados, mas literalmente juntos na mesma vibração. “In peace and harmony”, como dizem dezenas de canções dos tempos áureos. E a doce neblina da ganja incensando os ares a poucos metros dos policias que, aliás, não tiveram trabalho algum por ali, a não ser negar os que seus narizes lhes afirmavam: “tão fumando diamba!”

De ambas as partes, embaixo e em cima do palco, a integração era a mesma. Foi bonito ver gente como Rosa Reis, o genial Santacruz, Mano Borges, Celso Reis, Ronnie Green, DJs lendários,Tadeu de Obatalá, entre tanta gente boa e contente de estar ali. Mas entre tantos quero destacar a participação de Oberdan Oliveira, do fundamental Nonato e Seu Conjunto, que protagonizou um dos momentos mais arrepiantes da noite, recuperando “Aflitos” uma das primeiras canções reggae gravada no Brasil, no início dos anos 70 do século XX. Aquilo foi dose pra leão de Judah nenhum botar defeito.

Muito mais teria a falar, tagarela que sou quanto de trata de um tipo de música que me diz muito, musical, espiritual e culturalmente. Até hoje a trilha sonora dos meus deslocamentos por essa ilha bem-amada. Deixo pra depois.

Quero encerrar dando parabéns ao artífice do Museu do Reggae e saudando o governador Flávio Dino pela sensibilidade e alcance histórico da iniciativa. Sim, não sou do time do “hay gobierno, soy contra”, posição além de cômoda, de forte sabor quinta-colunista em nosso caso específico. Se “hay gobierno” e está fazendo coisas bacanas e em sintonia com a alma do povo, contará sempre com meu apoio e meu voto, porque não se faz democracia sem voto, mais isso já é outro assunto.

Era mais ou menos isso. Jah Guide!!

“Desmedidas” instituíam estado policial no país

mororo
Vou repetir aqui o que venho dizendo sempre que posso: a Operação Lava Jato jogou no lixo a oportunidade histórica que estava em suas mãos, no momento em que se tornou parcial, arbitrária, espetaculosa e policialesca.
Bastava ter agido com toda a dureza, dentro dos marcos legais. Mas não, quis os holofotes, embarcou em um delírio que a levou a se colocar acima do ordenamento jurídico de uma democracia a duras penas conquistada.
Sua lógica torta foi aquela de que “os fins justificam os meios”, instrumentalizando a justa indignação de milhões de brasileiros. Para alcançar os ditos fins, rasgou em tiras a Constituição que jurou defender, destruiu a economia do país e nos jogou em uma insegurança jurídica que está longe de ser contida
Os responsáveis por isso tem nome: Sérgio Moro, que deveria estar respondendo há muito tempo por suas arbitrariedades, e a turminha messiânica de Dalton Dallagnol, o homem do power point.
Para ser justo, é preciso dizer que a truculência demonstrada pela Lava Jata teve sua origem no próprio Supremo, que também desperdiçou a chance de fazer bonito ao conduzir de forma espúria o julgamento do Mensalão, jogando pra torcida, condenando sem provas porque certas pessoas “tinham de ser culpadas”. Para isso, aplicou (e ainda de forma deturpada) a teoria do Domínio do Fato, alheia ao ordenamento jurídico brasileiro.
As 10 Medidas Contra a Corrupção, boa parte dela, pelo menos, legalizava o arbítrio no país, instituía de vez o estado policial em que já estamos vivendo.
Refaçam as medidas dentro dos marcos da democracia e terão em mim um apoiador dos mais entusiasmados. Que sejam 10, que sejam 20 medidas. Sem arbitrariedades, sem super-poderes, sem fascismo!

LAMENTO AOS POETAS CALVINISTAS A PROPÓSITO DO NOBEL PARA DYLAN

 

dylan_dois

Previ o óbvio ontem, mas nem por isso deixo de ficar um pouco pasmo com a virulência de certos ataques ao Nobel concedido ao bardo de Duluth.

Quer saber mesmo? poetas em sua maioria são calvinistas, conectados à criação como dor, nunca como prazer. O poema tem que surgir na solidão de um escritório, arrancado a fórceps, em meio a intenso sofrimento, um parto complicado, prazer zero, viagem zero, gozo zero.

Não admitem facilmente que um autodidata que “construiu” sua formação literária de forma errática assaltando a biblioteca dos amigos “radicais”, em cujo sofá dormia um ou duas noite, possa ter criado obras como “Visions of Johanna”, “Sad-Eyed Lady of Lowlands”, só pra ficar em dois petardos do mesmo disco (Blonde on Blonde, 1966).

Sim, eles se sentem roubados, trapaceados, injustiçados. “Como assim Dylan ganhou o Nobel, um tocador de violão? e fulano, e sicrano, e beltrano, que é escritor de verdade e nunca ganhou?” dizem, como se ao negar o Nobel a Robert Zimermann, a academia sueca reparasse a inevitável injustiça que é muita gente boa não ter levado o prêmio. Desconfio mesmo que, no fundo, o que muitos gostariam de dizer era: “e eu, e eu, e eu?”.

Não estou sugerindo aqui que a premiação a Dylan não possa ser contestada. Claro que pode, bem como o prêmio Jabuti, Oceanos ou qualquer outro, aqui ou na Academia Jupiteriana de Letras. Não é isso, os argumentos é que são canhestros, pra não dizer reveladores de sentimentos nada generosos quando se trata de algo tão grande e generoso como a poesia, que nos ajuda a viver transformando a vida ainda que por segundos. Viva Dylan, viva o prazer da criação, mesmo que ele nos custe a vida!!!!!